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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

SIMPLES CHARUTO DE CABOCLO






Ligia segurava o charuto do caboclo que estava a cambonar enquanto a entidade em questão participava dos trabalhos em uma roda de descarrego.
Terminada a tarefa o caboclo dirigiu-se em direção a sua cambone e pediu o charuto de volta agradecendo-a por haver segurado o seu instrumento de trabalho, mas Ligia, não se contendo de sadia curiosidade, perguntou a entidade:
— Senhor caboclo?
— Pois não fia?
— O senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Pode fazer pergunta fia!
— O que eu gostaria de saber é o seguinte: por que o senhor sempre me agradece a cada vez que eu entrego o charuto que estou segurando de volta para as suas mãos?
— Suncê quer saber fia?
— Se for possível, gostaria sim.
— Fia, antes de caboclo responder, observe a atuação da nossa linha de trabalho nesta próxima roda de descarrego, sim?
— Sim senhor!
Após trabalhar com todas as pessoas que estavam naquela roda de descarrego a entidade estendeu sua destra a fim de que sua cambone segurasse o seu charuto enquanto ele e as demais entidades que participavam dos trabalhos na roda pudessem finalizar o trabalho.
Ao término daquela roda de descarga a entidade, então, tornou junto à Ligia dizendo:
— Entrega o pito de volta para Caboclo fia!
Ligia devolveu o charuto à entidade que, então, disse-lhe:
— Este caboclo agradece por toda sua atenção.
Ligia sorriu meio que ainda sem entender o porquê daquele agradecimento e o caboclo perguntou a ela:
— E então fia? O que suncê observou do nosso trabalho junto à roda de descarrego?
— Bem, eu observei algumas coisas, mas fica difícil de dizer algo, no aspecto geral, sobre o trabalho dos caboclos em uma roda de descarrego por que cada um trabalha de um jeito diferente em cada assistência.
— Isto até que é verdade, mas o que suncê observou de semelhante no trabalho de qualquer mano caboclo lá na roda?
— A fumaça do charuto! Nenhum dos senhores trabalha sem ela!
— Muito bem observado fia!
A entidade soltava umas baforadas do seu charuto enquanto fitava o semblante de Ligia e, após alguns instantes, perguntou a ela:
— Suncê ainda não entendeu porque que caboclo lhe agradece por segurar o pito dele, não é?
— Não senhor!
— Fia suncê tem o dom para isso e é por esse motivo que caboclo vai dilatar um pouco de sua percepção sensorial.
— Sim senhor!
A entidade estalava os dedos e soltavas algumas baforadas do seu charuto por toda a cabeça de Ligia. O processo durou poucos segundos e quando terminou a entidade solicitou a Ligia que abrisse os olhos.
— Nossa senhor caboclo!
— O que foi fia?
— É que eu fiquei com um pouco de tontura.
— Não se preocupe que já, já ela passa.
— Sim senhor, na verdade ela já está passando.
— Fia este caboclo vai participar de outra roda de descarrego e pede a suncê que continue a observar pra ver se descobre o porquê do nosso agradecimento, sim?
— Sim senhor.
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço para Ligia que, prontamente, segurou o charuto em suas mãos.
Minutos depois de terminada mais uma roda de descarrego a entidade pediu a Ligia:
— Entrega de volta o pito pra Caboclo fia!
Ligia assim o fez e ele novamente agradeceu-a para depois perguntar:
— E agora fia? O que suncê observou do nosso trabalho na roda?
— Nossa senhor caboclo! Parecia que eu estava ficando louca!
— Por que isso fia?
— Parecia que a fumaça do charuto dos senhores funcionava perispiritualmente para os assistidos na roda como se fosse uma espécie de chuveiro que tira todas as sujeiras do corpo físico.
A entidade sorriu com a comparação de Lígia e ela prosseguiu:
— É sério Sr. Caboclo! Quando a roda de descarrego terminou alguma coisa nelas parecia que estava muito mais limpo do que antes: algumas pessoas respiravam melhor, outras estavam como se tivessem retirado um peso do coração, enfim foi muito bonito de se ver.
— Fia antes de ir para a próxima roda de descarrego este caboclo pede que suncê segure o pito dele.
E, estendendo-lhe a destra, o caboclo entregou o charuto a sua cambone solicitando:
— Fia, agora feche os seus olhos e faça uma prece ao Criador pedindo bênçãos por todos aqueles que ainda passarão pelas rodas de descarga na gira de hoje!
— Sim senhor!
Ligia fez a prece com todo o fervor de sua mente e do seu coração e, então, abriu os olhos.
A entidade, assim, disse-lhe:
— Fia este caboclo agradece por suncê ter segurado o pito dele mais uma vez e pede que suncê observe o trabalho de nós em mais uma roda de descarga para ver se agora descobre o porquê dele agradecer a suncê por segurar o pito, tudo bem?
— Sim senhor!
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço e Ligia, prontamente, segurou em suas mãos o charuto da entidade.
O trabalho naquela roda foi finalizado e quando a entidade aproximou-se de Lígia esta estendeu-lhe as mãos na intenção de devolver o charuto para o caboclo, mas este lhe disse:
— Deixe o pito por mais um tempo em suas mãos que na hora certa este caboclo pede de volta a suncê, sim fia?
— Sim senhor!
— Este caboclo agradece por toda sua dedicação fia e pergunta: o que suncê observou nos trabalhos da última roda que caboclo acabou de participar?
— Senhor caboclo eu realmente observei algumas coisas, mas eu peço ao senhor que, se eu houver visto demais, que o senhor fale francamente comigo como sempre o fez.
— Nossa fia Ligia! Mas por que todo este alvoroço?
— Por que se na penúltima roda que o senhor participou eu percebi que a fumaça dos charutos funciona como a água de um chuveiro, nesta última roda parece que eu vi o que funciona como uma espécie de sabão ou sabonete.
A entidade deu um discreto sorriso para sua cambone e esta tornou a dizer-lhe:
— E então Senhor caboclo? Eu vi coisa onde não existia?
— De forma alguma fia! Suncê só viu o que havia para ver!
— Nossa, mas o senhor fala isto de uma maneira tão calma!
— E qual é o espanto nisto fia?
— Por que o desconhecido assusta um pouco e eu não sei nem um pouco do que eu vi.
— Fia, mas é como suncê mesma disse antes: o que tem de assustador em se tomar uma boa ducha?
— Ducha?
— É fia ou, como suncês encarnados mesmo dizem uma boa chuveirada!
— ?????
— Fia conte pra este caboclo o que foi que suncê viu!
— Bem, enquanto o senhor dava umas baforadas em uma pessoa da roda de descarrego milhares de minúsculos seres ficavam a rodear esta assistência em questão sempre na direção da cabeça para os pés. Estas espécies de seres giravam numa velocidade absurdamente alta e direcionada como se estivessem sendo controlados por alguém a distância. Eles apareciam e sumiam como que por encanto quando o senhor terminava o trabalho em uma pessoa participante da roda de descarga e passava para outra. Bom, foi isto que eu vi.
— A fia só está se esquecendo de um detalhe fundamental em tudo que observou da participação deste caboclo na última roda de descarrego!
— Verdade?
— Fia, fale uma coisa pra este caboclo!
— Sim senhor!
— Segundo a sua observação, participar desta última roda de descarrego foi mais fácil ou mais difícil do que a penúltima em que este caboclo participou?
— Ah, é verdade! Bom quem estava na dinâmica do trabalho lá na roda é o senhor, mas para mim que observava dava a nítida impressão que o senhor conseguia realizar o trabalho com muito mais facilidade, tendo em vista que na penúltima roda parecia que o senhor se concentrava muito mais para poder fazer o seu trabalho do que nesta última.
— Não foi impressão sua fia: para este caboclo, trabalhar nesta ultima roda, foi muito mais fácil que na penúltima e você fia teve uma grande parcela de responsabilidade para que caboclo obtivesse esta facilidade.
— Eu?
— Claro fia, não é suncê que é a cambone deste caboclo?
— Sou eu sim senhor, mas não sei dizer qual foi minha contribuição!
— Pense um pouco minha filha! Qual foi a grande diferença entre a penúltima e a última vez que suncê entregou o pito para este caboclo antes dele participar das rodas?
— Na ultima vez, diferentemente da penúltima, eu fiz uma prece ao Criador pedindo bênçãos para todas as assistências que participariam das rodas. Foi isto senhor caboclo? A prece que fiz a Deus?
— Fia toda prece a Tupã é sempre muito válida em nosso trabalho de fazer a caridade, mas suncê pode relembrar para este caboclo o que suncê possuía em mãos quando proferiu a referida prece?
— Meu Deus é verdade! Em minhas mãos estava o charuto do senhor!
— Exatamente fia! E então, suncê descobriu por que caboclo agradece suncê a cada vez que pede o pito dele?
— O senhor me desculpe, mas é que eu ainda não consegui chegar lá!
— Então este caboclo não vai mais fazer mistério fia: Caboclo agradece a suncê por que a cada vez que sunce entrega o pito de volta pra ele, acaba entregando junto boa parte de sua firmeza, de sua vibração, de sua energia.
— Eu???
— Não só suncê, mas cada cambone que trabalha junto a cada mano caboclo que milita em cada terreiro de Umbanda neste mundo de Tupã Nosso Pai.
— Isto é surpreendente!
— Antes da última roda que caboclo participou suncê fez prece sentida a Tupã e entregou o pito pra caboclo trabalhar cheio destas sutilíssimas e importantíssimas vibrações do desejo de caridade ao próximo.
— Sim, mas eu devo ser sincera e dizer que só fiz isto da última vez.
— Este caboclo sabe.
— Mas se das outras vezes que eu segurava o charuto do senhor eu não fazia prece alguma por que o senhor, mesmo assim, me agradecia?
— Independente de suncê fazer preces ou não, a cada vez que suncê entrega o pito para caboclo, suncê passa muito de sua energia para ele.
— Mas e se eu não estiver com energia boa no dia da gira? Eu vou acabar passando o pito para o senhor impregnado com minhas energias não muito positivas, mesmo assim o senhor me agradeceria?
— Já houve alguma gira que suncê entregou o pito pra Caboclo e ele não lhe agradeceu?
— Não senhor!
— Mas já houve giras em que suncê veio trabalhar com uma energia não muito boa, não é verdade?
— Isto é verdade, mas então por que o senhor sempre agradece?
— Fia, na verdade, o que caboclo agradece é a oportunidade de trabalho no bem que suncês dá pra nós. Umbanda é parceria fia!
— Desculpe, mas como é?
— Parceria fia: estar juntos por um objetivo em comum. Quando suncês cambones estão bem, então suncês fazem preces ou não as fazem, mas entregam o pito para nós com as energias boas que suncês estão naquele dia para nós trabalhar em favor do próximo, não é assim?
— É sim senhor!
— Já quando é suncês que não estão bem, daí somos nós que fazemos preces ao Criador, enquanto seguramos o nosso pito, rogando que suncês possam encontrar melhoras para as dificuldades de suncês e ajudar nós a trabalhar em nome da caridade cada vez mais e melhor e daí, somente após esta prece fervorosa, é que nós entregamos o pito de volta pra suncês segurar a fim de que, captando um pouco de nossa energia que deixamos no pito, suncês consigam encontrar um pouco de lenitivo que o merecimento de suncês lhes facultar.
— Meu Deus, mas isto é lindo!
Assim exclamou Ligia com a voz embargada de emoção pungente e sincera.
— Isto é Umbanda fia e Umbanda, como caboclo disse, é parceria: quando suncê não está bem e entrega o pito impregnado de energias não muito positivas para caboclo, ele então, quando pega este pito das suas mãos, agradece a suncê pela oportunidade que suncê está dando a ele de trabalhar junto a Tupã objetivando a sua melhora energética, vibracional.
— Nossa pelo que o senhor me diz a Umbanda é parceria mesmo, hein?
— Com certeza fia e é por isso que cada vez que um mano caboclo pede o pito de volta para seus cambone ele só tem a agradecer a este.
— Mas o ideal, quando o cambone não está bem, é fazer sempre preces, pedir auxílio a alguma entidade e ficar vigilante para sua vibração não cair e, assim, dificultar o trabalho das entidades, não é assim?
— Certamente não é fia!?! Mas este caboclo sabe que a filha põe em prática aqui no terreiro muito do que acabou de perguntar pra caboclo, não é verdade?
— Infelizmente não é sempre, mas graças a Deus acaba sendo a maioria das vezes, mas...
A voz de Lígia mal conseguia sair dos seus lábios tamanha era a emoção de estar aprendendo coisas tão básicas e importantes para o bom andamento de uma gira, mas de uma forma simples e prática. Mesmo percebendo a dificuldade de Lígia em falar, devido à emotividade, o caboclo incentivou-a dizendo:
— Pode falar fia.
E, fazendo um esforço grandioso para não embargar a sua voz com uma honesta emoção, foi que Lígia disse:
— Sabe o que eu acho mais lindo na Umbanda em relação a tudo isto que o senhor acabou de revelar para mim?
— A voz de suncê está embargada não é fia? Embargada de singela emoção por contemplar a prova do que disse Jesus sobre a simplicidade da misericórdia e benevolência das coisas de Deus materializada na religião de Umbanda pela presença de um simples charuto de caboclo, não é verdade fia?
As lágrimas de agradecimento por estar tendo aquela preciosa conversa com o caboclo deslizavam aos borbotões pela face de Ligia e esta emoção tão bonita e sincera a impedia de proferir qualquer resposta em relação à indagação feita pela entidade e ela, assim, só pôde respondê-lo positivamente acenando com a cabeça.
O caboclo então continuou a conversa dizendo:
— Caboclo agradece a Tupã pela parceria entre suncê e este caboclo e respeita cada lágrima de gratidão ao Criador que está deslizando pelo seu rosto, mas deve solicitar licença por um breve instante neste seu processo de agradecimento para pedir a suncê que devolva o pito deste caboclo para que ele possa participar de mais uma roda de descarrego em nome da caridade ao próximo.
As lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto de Ligia e ela, assim, só pôde estender as mãos para devolver o charuto sem nada conseguir dizer a entidade.
A entidade pegou o charuto nas mãos, deu as costas para Ligia, andou um passo a frente e ficou parado de costas para sua cambone.
Talvez fosse para substituir um pouco daquelas lágrimas de alegria por um sorriso singelo feito da mesma emoção, talvez não, o fato foi que o caboclo novamente virou-se de frente para Ligia e disse:
— Pensou que caboclo houvesse se esquecido desta vez não é fia Ligia? Mas este caboclo não esquece nunca de agradecer a suncê por haver segurado por mais uma vez o pito dele. Que Tupã abençoe em dobro toda a atenção que suncê dispensa a este caboclo nesta nossa parceria e que seja abençoada também a parceria que Tupã tem com todos nós através da nossa sagrada e amada religião de Umbanda.
Ao que Lígia, já um tanto refeita em suas emoções, respondeu:
— Que assim seja!!!!!

quarta-feira, 1 de julho de 2015

SABEDORIA DE PRETO-VELHO

PRETO VELHO – Meu filho, você tem que evoluir, tudo evolui.
MÉDIUM – O que tenho que fazer, meu Pai?
PRETO VELHO – Se desfaça de todos os bens materiais que você tem. Dê uma parte para os pobres e necessitados e a outra para sua mulher e filhos.
MÉDIUM – De tudo?
PRETO VELHO – Sim. E também de sua mulher e filhos. Vamos sair pelo mundo ajudando aqueles que necessitam. Andaremos de cidade em cidade, de lugar em lugar. Quando tiver fome, eu providenciarei comida; quando tiver sono, eu providenciarei lugar seco e seguro para descansar; quando tiver frio, eu providenciarei agasalho e roupas…
MÉDIUM – Não sei se posso. O senhor está pedindo muito de mim
PRETO VELHO – Mas você não quer evoluir, chegar numa consciência maior?
MÉDIUM – Eu quero evoluir, mas tenho que perder tudo o que tenho. Largar minha família, meus amigos… Não sei se posso fazer isso para evoluir. Prefiro ficar como estou e buscar uma outra forma de evoluir. O senhor mesmo não disse que existem muitas formas de evoluir, porque só me deu esta escolha?
PRETO VELHO – Quando você disse que era necessário retirar as imagens do meu Congá que isso era necessário para que minha casa evoluísse, que eu evoluísse, não me deu escolha. Eu deixei. Quando você disse que era necessário retirar os atabaques, que isso era necessário para que minha casa evoluísse, que eu evoluísse, não me deu escolha. Eu deixei. Quando você disse que era necessário parar com as oferendas para os Orixás, que isso era necessário para que minha casa evoluísse, que eu evoluísse, não me deu escolha. Eu deixei. Quando você disse que não era preciso utilizar as guias, que isso era necessário para que minha casa evoluísse, que eu evoluísse, não me deu escolha. Eu deixei. Quando você disse que era necessário que os Guias de nossa casa parassem de beber e fumar, que isso era necessário para que minha casa evoluísse, que eu evoluísse, não me deu escolha. Eu deixei. Você procurou outras formas e outros meios na procura de uma consciência maior. Introduziu várias formas e meios diferentes dos que eu lhe ensinei, pois você começou a achá-los atrasados, primitivos. No entanto, eu pedi a você apenas uma coisa, e você diz que é incapaz. Você mudou tudo o que achou necessário, mas não soube mudar por dentro. Evolução não se faz mudando formas, fundamentos, ritos, meios… Evolução se faz de dentro para fora. Não importa o nosso modo de operar nossa magia, mas sim o que ela representa; sua essência e importância na vida dos que nos procuram; a doutrina e a responsabilidade de nossos rituais; nossos fundamentos; o respeito pelo que é nosso. Você mudou procurando o novo, mas apenas buscou novas formas de fazer velhas coisas. Coisas que você achava que eram primitivas e que não fariam você evoluir. Você hoje se baseia em outros para mostrar sua evolução e consciência: se eles mudam lá, você também muda aqui; se eles fazem lá, você faz aqui. Você fugiu das velhas formas, mas apenas buscou o moderno para fazer o velho. Você já está velho. Em breve irá partir e eu não mais o usarei como cavalo. Tenho, agora, nova missão com outro médium. Nele a tradição será mantida e o novo se fundira com o velho em busca da essência e não da forma..
MÉDIUM – O Senhor nunca me recriminou. Nunca disse que não.
PRETO VELHO – Se eu dissesse que não, você ficaria frustrado. Faria as coisas por fazer, sem o respeito ou os fundamentos necessários. Então eu deixei que você fizesse o que achava que era correto, pois você o faria com gosto. Na verdade, você nunca perguntou o que eu achava de tudo isso. Mas mesmo em desacordo, reconheço que você ajudou muitas pessoas.
MÉDIUM – Porque o Senhor só está me dizendo isto agora? Depois de tanto tempo trabalhando comigo…
PRETO VELHO – Você mudou tanto… Tanto que nem o reconheço mais… Só que agora você esta velho. Já está indo embora. Então vim para pedir uma última caminhada juntos, para que você encontrasse sua essência e tivesse a oportunidade de alcançar o que você buscou todos esses anos: evoluir, alcançar uma consciência com Deus.
MÉDIUM – Então todo esse tempo… Todas essas mudanças que fiz… Foram em vão?
PRETO VELHO – Não. Muitos que aqui estiveram e saíram para construir suas casas e nelas buscaram a essência daquilo que você ensinou, e que não mudaram por mudar, seguindo um caminho próprio, conseguiram encontrar uma consciência com Deus e uma evolução de dentro para fora. Você, mesmo sem saber, os ajudou.
MÉDIUM – Mas eu expulsei muitos médiuns por não quererem seguir com minha linha de trabalho.
PRETO VELHO – Eles souberam tirar o melhor de seus ensinamentos e dos meus. Eles abriram suas casas e hoje fazem Umbanda de várias formas.
MÉDIUM – Então…
PRETO VELHO – Sim. Aqueles que você dizia que ficaram no caminho; aqueles que não ficaram mudando constantemente, mas souberam degustar cada momento e perpetuar a tradição, os costumes, os fundamentos, os ritos… Eles mudaram a forma de ver o mundo e sua relação com ele. Buscaram a modernidade nas relações com os médiuns, no entendimento dos novos problemas, essa modernidade viciosa do ser humano. Utilizaram a modernidade e o novo para levar a doutrina, os ensinamentos, a palavra e o auxílio aos que necessitavam, mas souberam dar continuidade à nossa cultura e nossa forma, alcançando a essência naturalmente, gradativa. Mesmo o novo precisa de tradição para virar doutrina e buscar em sua própria forma e essência. Agora é hora de seguirmos juntos.
MÉDIUM – Mas eu não sei se posso largar tudo…. Eu disse ao Senhor que não podia largar tudo o que construí, minha família, mulher, filhos, amigos…
PRETO VELHO – Olhe para baixo… O que você está vendo?
MÉDIUM – Minha família. Minha mulher, meus filhos, meus amigos… Estão à minha volta. E com lágrimas se despedem… Para onde vamos, meu Velho?
PRETO VELHO – Encontrar o seu cavalo e o Terreiro onde você irá trab alhar dando auxílio aos necessitados; conforto aos desesperados; curando os enfermos; agasalhando o frio das almas com palavras de calor e esperança; dando de beber a sede de muitas almas em busca de luz… Agora você é um de nós.
MÉDIUM – É engraçado, meu Velho. Eu busquei tanto o novo tentando alcançar a evolução que evoluí com a missão da tradição e de perpetuar o que não soube dar o devido valor. O Senhor ficará comigo?
PRETO VELHO – Sim, e lhe darei meu nome e minha força. Te ensinarei tudo o
que será necessário. O resto será entre você e seu médium. Ele é novo e muito parecido com você.
MÉDIUM – E como devo agir com ele? Também sofrerei como o Senhor sofreu comigo?
PRETO VELHO – Eu não sofri com você.
MÉDIUM – Mas o Senhor disse…
PRETO VELHO – Eu não disse que sofri. Estava preparando você para tudo isso. Às vezes só se dá o real valor a algo quando ele escorre de nossas mãos. Você vivenciou a tradição, os costumes e os novos meios, as novas formas. Adquiriu experiências diferentes. Segure minha mão…
MÉDIUM – Estou mudando…
NO TERREIRO – “Bate tambor lá na Angola, bate tambor… Bate tambor lá na Angola, bate tambor… Os meus Pretos Velhos batem tambor… Nas minhas Almas batem tambor… Para todo povo, batem tambor… Lá na Angola, bate tambor… Bate tambor lá na Angola, bate tambor… Bate tambor lá na Angola, bate tambor…”.
PRETO VELHO – É aquele ….
* O novo PRETO VELHO incorpora e um novo ciclo se inicia…
(Autoria desconhecida)

MENSAGEM da SENHORA POMBAGIRA ROSA CAVEIRA

Um dia uma moça me procurou e perguntou meu nome. Eu disse: ―Sou Rosa Caveira. Ela respondeu: ―Credo! E eu: ―Credo por quê? Qual o motivo? ―Esquisito..., tornou ela.

Bom, para quem não me conhece, vou explicar esse nome.

Sou Rosa Caveira.

Trabalho pela Rosa do Amor da Vida, trazendo a Caveira da Morte para tudo aquilo que pretenda matar o Amor.

Não sou dona da Rosa e nem da Caveira. Sou apenas filha e servidora, por devoção. Do meu jeito, do jeito que posso.

A Rosa é símbolo da Mãe da Compaixão.

A Caveira é símbolo do Pai da Vida.

A Rosa é o Amor Divino que não morre nunca.

A Caveira só mostra e recolhe o que não pertence ao Amor, para restaurar a Vida. Pois sem Amor não há Vida.

Trago a Rosa para dar Vida a quem desaprendeu a amar.

Trago a Caveira para recolher o sentimento de amor que secou no coração humano.

Se você olha para uma rosa, nem sempre lembra que a raiz dela está na terra. E a terra precisa de qualidade para manter essa vida. O que sustenta a flor não é visível ao olho comum. E o que pode estar matando a flor também não.

Quem secou por dentro do coração deixou de viver. Ninguém vê, mas está acontecendo. Então eu trago a Caveira para recolher essa dor, essa “morte em vida”. E trago a Rosa para renascer aquele coração.

Sou Rosa Caveira. E só. Ajudo como posso, para que mais e mais corações estejam vivos. E para que todos compreendam que Morte é renascimento, e nunca é fim.

O tecido que adoece precisa ser removido, para que um novo surja e o todo se mantenha vivo. Tudo trabalha para que o Amor permaneça, pois Ele é Fonte de Vida.

Nenhuma dor vem sozinha. Ela traz consigo a força da reparação.

É isso que faço: trago caminhos de reparação para as dores do coração, para que todos tenham Vida.

Receba da minha Rosa o Amor, a cor, o perfume, a luz. Desperte no seu coração o gosto pela Vida, que nasce alimentado pelo Perdão, pela Compaixão e a Misericórdia de Deus.

Entregue para a minha Caveira tudo aquilo que vem consumindo o seu coração: a mágoa, o ressentimento, a revolta, o desamor, o desespero, a falta de confiança e o desrespeito por si mesmo, os pensamentos de vingança, tudo.

E não queira amarrar ninguém ao seu lado! Porque o Amor não se impõe, Ele só abraça, acarinha e dá Vida. Desista desse crime, porque o Olho que Tudo Vê é também o Pai da Liberdade.

Limpe a taça do seu coração do fel do desejo de posse a qualquer preço. Alimente-o com o Mel da Mãe da Compaixão, para ter também o amparo do Pai da Vida.

Escolha se quer estar vivo ou se pretende ser um morto-vivo.

Sua alma não morrerá nunca. Mas os seus sentimentos podem adoecer e secar. Não permita. Cultive rosas no seu coração e encontrará perfume em todos os caminhos por onde passar.

Aceite a Rosa que lhe ofereço.

A Caveira não lhe posso dar. Sem ela eu não teria como lhe ajudar a se tornar, para todo o sempre, uma filha ou um filho devoto da Rosa Maior.

Aceite a Rosa do Amor e cultive-a no coração. Foi Ela quem me salvou quando eu andava perdida na escuridão, buscando morrer, sem saber que as almas não morrem jamais.

Por isso me tornei uma servidora da Rosa e uma portadora da Caveira.

Esta Caveira só faz por nos lembrar que “morte” é ilusão, pois o que existe é a Eternidade da Vida.


Então, aproveite! Reaqueça seu coração de Amor e viva a Eternidade desde já

domingo, 28 de junho de 2015

O Guardião das matas

Escrito sob inspiração mediúnica por Pedro rangel Telles de Sá.



O Guardião das matas
Certa vez, em um terreiro de umbanda, uma entidade amiga pediu que eu fosse fazer uma obrigação nas matas. Até aí tudo normal se este espírito amigo não tivesse me solicitado que antes de realizar a referida obrigação eu acendesse um charuto, abrisse uma marafa e oferecesse ao exu das matas pedindo licença para utilizar aquele ponto de forças da natureza e proteção e amparo para aquela obrigação que eu iria realizar.
Não entendi o porquê desta solicitação em relação ao exu e fiquei protelando por três dias a realização desta obrigação.
Quando foi a noite do terceiro dia, ao adormecer, meu duplo foi irresistivelmente atraído para uma região de matas que se encontra perto de minha casa. Vale a pena ressaltar que eu não tenho muita afinidade com a mata principalmente por ter um medo terrível de cobras. Mas lá estava eu de frente para a mata nas altas horas da noite. Interessante que o “sonho” era meu e o espírito, é óbvio, também, mas eu não tinha o mínimo controle sobre as ocorrências que aconteciam nele.
De repente, fui irresistivelmente atraído por mata adentro e fechei os olhos morrendo de medo. Por quanto tempo esta atração durou eu sinceramente não sei, só sei que quando eu abri meus olhos me vi de frente com um ser que deveria medir certamente mais que três metros de altura, seu corpo era mais musculoso que o de qualquer super-herói que eu tenha conhecido na ficção terrestre, sua face era magneticamente sedutora e impreterivelmente dura, não sei dizer por que mas aquele ser não me passava nenhum sentimento de medo mas sim um tremendo respeito, tanto que inconscientemente, quando dei por mim, estava em posição de reverência e ajoelhado a seus pés.
Apesar do respeito eu não pude sopitar a minha curiosidade e perguntei:
— Ó magnânimo ser, por caridade vós poderíeis dizer à minha pessoa quem sóis e o que eu faço aqui?
— AHahahahahahahahahahahahhahahahaha!!!!!!!!!
Dele eu escutei uma gargalhada estrondosa e devo afirmar que seu tom de voz era cavernoso e gutural.
— Não precisa usar essas palavras difíceis comigo não camarada, no dia-a-dia eu sei que várias palavras de seu vocabulário chegam ser até mesmo chulas, não é verdade?
— Sim, respondi mas é que eu só queria demonstrar um pouco de respeito para com o senhor.
— Senhor, eu? Ahahahahahahahahahahahahahahahahahaha !!!!!!!!!!!!!!
E outra vez deu mais uma gargalhada gutural para depois responder:
— Camarada, tenho que te falar duas coisas; primeiramente é que eu não sou senhor de nada e ainda estou muito longe de merecer do criador a oportunidade de receber algo de que eu possa me assenhorar para receber de você este tratamento; segundo, se você de fato quer demonstrar algum respeito por mim então seja quem você realmente é, seja verdadeiro: converse comigo da mesma forma como você fala com os outros no dia-a-dia, aí sim você estará me respeitando. Não tente jamais aparentar para mim ser o que não é por que pode ter certeza que eu conheço o mais íntimo dos recônditos da alma humana e sei que a beleza desta reside em se assumir imperfeita como é e perfectível como deve ser.
— Tudo bem companheiro,posso te chamar desta forma, não é?
— Sim !!!
— Pois então companheiro, como eu estava dizendo, será que você poderia me dizer quem é e o que eu faço aqui?
— Meu camarada,vamos por partes. Suponha que você tivesse vários tesouros, cada um em uma localidade diferente, e me responda: você teria condições de estar presente simultaneamente em cada uma destas localidades para proteger os seus tesouros de malfeitores?
— Não.
— Mas o seu tesouro teria que ser protegido de qualquer forma, não é?
— Sim.
— Então responda como você resolveria este problema?
— Bom, a resposta nem é tão difícil assim e eu digo que resolveria o problema colocando seguranças em cada um dos lugares onde eu tivesse um tesouro.
— Muito bem camarada se você que é um ser humano, membro de uma raça ainda tão imperfeita e materialista que é a raça humana, pôde encontrar uma resposta satisfatória a esta questão imagine então que solução o Divino Criador obteve para que a sua divina obra, que é a natureza, não fosse maculada em seus mais diversos e específicos reinos que são: vegetal, mineral, aquático, telúrico, ígneo, eólico e cristalino!
— Espere aí, então você está querendo dizer...
— .....sim camarada, com isso eu quero dizer que pelo fato da criação divina ser tão incomensuravelmente extensa e infinitamente contínua Ele achou por melhor colocar em cada um de seus pontos de forças da natureza um guardião que pudesse se ocupar da proteção de seus mistérios.
— Meu Deus, isto é incrível!
— Sim, camarada mas isto ainda não é tudo, tenho ainda mais uma questão a propor pra você, me diga o que aconteceria se qualquer pessoa quisesse entrar em qualquer uma de suas propriedades onde se encontra seu tesouro?
— Eles seriam impedidos de entrar pela guarda de seguranças.
— Exatamente. E qual seria a única forma legal deles adentrarem sua propriedade?
— Bem, a única forma lícita de qualquer pessoa entrar em uma de minhas propriedades seria se esta possuísse um crachá de identificação, porque a apresentação deste crachá a qualquer um dos seguranças tornaria explicitamente claro que a referida pessoa tem autorização para penetrar em minha propriedade.
— Perfeitamente, agora lhe proponho a última questão camarada: sabendo que cada ponto de forças da natureza tem um guardião, o que qualquer pessoa deveria realizar antes de fazer qualquer oferenda religiosa ou magística num ponto de forças da natureza?
— Bem, pela forma como você está explicando qualquer pessoa antes de realizar qualquer oferenda deveria mostrar tipo um “crachá ” para o guardião do ponto de força da natureza e, me atrevi dizer, sabendo que todo exu é um guardião poderia até adivinhar que este “crachá” , no caso, poderia até mesmo tomar forma de uma marafa aberta e um charuto aceso, eu estou correto?
— Sim, e agora você chegou aonde eu queria, ou seja, você sabe por que foi trazido até aqui, não sabe???
— É, agora eu sei.
— E qual foi este motivo?
— O fato de uma entidade há três dias atrás ter pedido para eu fazer uma obrigação nas matas e eu estar adiando esta tarefa até agora.
— Olha camarada, o que você falou, você sabe que é uma meia-verdade, você não gostaria de completá-la?
Acho que é desnecessário dizer o quanto envergonhado eu estava pelo fato de saber que ele, por ser um grande conhecedor da alma humana, sabia da outra metade da minha história.
— Bom companheiro exu, a outra metade da minha historia, como eu sei que você bem sabe, reside no fato de eu ter adiado esta obrigação pelo fato de que a entidade amiga que a solicitou ter determinado que, antes que eu assim procedesse, eu oferecesse uma marafa e um charuto para o exu das matas pedindo licença para usar o espaço sagrado da natureza e o amparo e a proteção para a obrigação que seria realizada a seguir.
— E você até agora ainda não realizou a obrigação por não ter entendido o porquê de a entidade amiga ter lhe solicitado que fizesse antes a oferenda para o guardião das matas se isto antes nunca havia sido feito certo?
— Sim.
— E você não consegue realizar nada se não souber o porquê, certo?
— Sim.
É importante destacar que eu respondi esta última pergunta de boca aberta e admirado de como um exu é, de fato, um grande conhecedor da alma humana. Mesmo assim, ainda, me atrevi a fazer uma pergunta.
— Mas e aquelas pessoas que fazem suas obrigações nos pontos de força da natureza sem antes fazer uma oferta para o guardião deste ponto de força?
— Ótima questão camarada e eu lhe digo que tudo é questão de nível de consciência.
— Como assim?
— Ora camarada, consciência entende? As pessoas que desconhecem a importância de se oferendar aos guardiões dos pontos de forças da natureza antes de realizarem uma obrigação, ou seja, as que desta importância não têm consciência fazem suas obrigações e a espiritualidade responde aos seus anseios (de acordo com o seus merecimentos) da mesma forma que responde a uma pessoa que fez a oferenda para o guardião. Agora a partir do momento que a pessoa entende a importância desta oferenda e deixa de realizá-la as conseqüências disto eu respondo nem por palavras minhas mas me utilizo d’aquelas pertencentes àquele que está a direita do Criador “..muito será cobrado d’aquele a quem muito for dado.”
— Mas então quer dizer que você é o guardião das matas?
— Errado camarada. Eu sou um guardião das matas e sirvo ao meu senhor que é O guardião das matas, ou como dizem vocês umbandistas, O guardião de Oxóssi. E lhe digo mais companheiro, jamais se sinta importante por estar diante de um guardião das matas,sinta-se,antes,responsável.Entenda que a vitalização nos campos do conhecimento é um dos atributos dos quais eu, no aspecto positivo, procuro honrar em meu mistério, ou seja, auxiliar a retirar das trevas da ignorância àqueles que dela desejam sair.
Já no aspecto negativo eu também, e sempre, sigo as atribuições a mim fornecidas pelo Criador e procuro punir àqueles que se utilizam mal em qualquer campo na área do conhecimento, seja paralisando-os ou esgotando-os em seus próprios negativismos.
Agora acorde camarada, meu recado já foi dado e está na minha hora, porém, nunca esqueça de se lembrar de jamais se sentir importante pelos conhecimentos que lhe foram passados esta noite, antes, sinta-se responsável. Responsável por conhecer a importância destes conhecimentos. Responsável por sua própria evolução.Responsável por passar este conhecimento adiante.Responsável porque “muito será tirado d’aquele a quem muito for dado”.
Acordei em minha cama pensando em como a vida, por vezes, é engraçada: fui me deitar relutando em fazer a obrigação nas matas por não querer oferendar, antes, a exu por que não haviam me informado a importância do gesto: eu queria alguma explicação antes para depois eu fazer a obrigação.
Mas acordei conhecendo a explicação e me sentindo responsável até demais por esta informação, desejando até mesmo nunca dela ter tido conhecimento; daí então comecei a sentir um forte cheiro de marafa em meu quarto e olhei para o relógio de parede: era meia-noite em ponto.
É, pensei, a responsabilidade era grande mas eu havia entendido o recado e iria, assim que amanhecesse, fazer minha obrigação nas matas realizando, antes, uma oferenda ao guardião deste ponto de forças; afinal depois do esclarecimento do sonho fazer esta oferenda era minha obrigação e eu iria realiza-la com todo o respeito e responsabilidade.

Ass: Um amigo espiritual

Simples charuto de caboclo


Ligia segurava o charuto do caboclo que estava a cambonar enquanto a entidade em questão participava dos trabalhos em uma roda de descarrego.
Terminada a tarefa o caboclo dirigiu-se em direção a sua cambone e pediu o charuto de volta agradecendo-a por haver segurado o seu instrumento de trabalho, mas Ligia, não se contendo de sadia curiosidade, perguntou a entidade:
— Senhor caboclo?
— Pois não fia?
— O senhor poderia esclarecer-me uma dúvida?
— Pode fazer pergunta fia!
— O que eu gostaria de saber é o seguinte: por que o senhor sempre me agradece a cada vez que eu entrego o charuto que estou segurando de volta para as suas mãos?
— Suncê quer saber fia?
— Se for possível, gostaria sim.
— Fia, antes de caboclo responder, observe a atuação da nossa linha de trabalho nesta próxima roda de descarrego, sim?
— Sim senhor!
Após trabalhar com todas as pessoas que estavam naquela roda de descarrego a entidade estendeu sua destra a fim de que sua cambone segurasse o seu charuto enquanto ele e as demais entidades que participavam dos trabalhos na roda pudessem finalizar o trabalho.
Ao término daquela roda de descarga a entidade, então, tornou junto à Ligia dizendo:
— Entrega o pito de volta para Caboclo fia!
Ligia devolveu o charuto à entidade que, então, disse-lhe:
— Este caboclo agradece por toda sua atenção.
Ligia sorriu meio que ainda sem entender o porquê daquele agradecimento e o caboclo perguntou a ela:
— E então fia? O que suncê observou do nosso trabalho junto à roda de descarrego?
— Bem, eu observei algumas coisas, mas fica difícil de dizer algo, no aspecto geral, sobre o trabalho dos caboclos em uma roda de descarrego por que cada um trabalha de um jeito diferente em cada assistência.
— Isto até que é verdade, mas o que suncê observou de semelhante no trabalho de qualquer mano caboclo lá na roda?
 — A fumaça do charuto! Nenhum dos senhores trabalha sem ela!
— Muito bem observado fia!
A entidade soltava umas baforadas do seu charuto enquanto fitava o semblante de Ligia e, após alguns instantes, perguntou a ela:
— Suncê ainda não entendeu porque que caboclo lhe agradece por segurar o pito dele, não é?
— Não senhor!
— Fia suncê tem o dom para isso e é por esse motivo que caboclo vai dilatar um pouco de sua percepção sensorial.
— Sim senhor!
A entidade estalava os dedos e soltavas algumas baforadas do seu charuto por toda a cabeça de Ligia. O processo durou poucos segundos e quando terminou a entidade solicitou a Ligia que abrisse os olhos.
— Nossa senhor caboclo!
— O que foi fia?
— É que eu fiquei com um pouco de tontura.
— Não se preocupe que já, já ela passa.
— Sim senhor, na verdade ela já está passando.
— Fia este caboclo vai participar de outra roda de descarrego e pede a suncê que continue a observar pra ver se descobre o porquê do nosso agradecimento, sim?
— Sim senhor.
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço para Ligia que, prontamente, segurou o charuto em suas mãos.
Minutos depois de terminada mais uma roda de descarrego a entidade pediu a Ligia:
— Entrega de volta o pito pra Caboclo fia!
Ligia assim o fez e ele novamente agradeceu-a para depois perguntar:
— E agora fia? O que suncê observou do nosso trabalho na roda?
— Nossa senhor caboclo! Parecia que eu estava ficando louca!
— Por que isso fia?
— Parecia que a fumaça do charuto dos senhores funcionava perispiritualmente para os assistidos na roda como se fosse uma espécie de chuveiro que tira todas as sujeiras do corpo físico.
A entidade sorriu com a comparação de Lígia e ela prosseguiu:
— É sério Sr. Caboclo! Quando a roda de descarrego terminou alguma coisa nelas parecia que estava muito mais limpo do que antes: algumas pessoas respiravam melhor, outras estavam como se tivessem retirado um peso do coração, enfim foi muito bonito de se ver.
— Fia antes de ir para a próxima roda de descarrego este caboclo pede que suncê segure o pito dele.
E, estendendo-lhe a destra, o caboclo entregou o charuto a sua cambone solicitando:
— Fia, agora feche os seus olhos e faça uma prece ao Criador pedindo bênçãos por todos aqueles que ainda passarão pelas rodas de descarga na gira de hoje!
— Sim senhor!
Ligia fez a prece com todo o fervor de sua mente e do seu coração e, então, abriu os olhos.
A entidade, assim, disse-lhe:
— Fia este caboclo agradece por suncê ter segurado o pito dele mais uma vez e pede que suncê observe o trabalho de nós em mais uma roda de descarga para ver se agora descobre o porquê dele agradecer a suncê por segurar o pito, tudo bem?
— Sim senhor!
Quando o caboclo terminou de realizar o seu trabalho com o charuto naquela roda ele, então, estendeu o braço e Ligia, prontamente, segurou em suas mãos o charuto da entidade.
O trabalho naquela roda foi finalizado e quando a entidade aproximou-se de Lígia esta estendeu-lhe as mãos na intenção de devolver o charuto para o caboclo, mas este lhe disse:
— Deixe o pito por mais um tempo em suas mãos que na hora certa este caboclo pede de volta a suncê, sim fia?
— Sim senhor!
— Este caboclo agradece por toda sua dedicação fia e pergunta: o que suncê observou nos trabalhos da última roda que caboclo acabou de participar?
— Senhor caboclo eu realmente observei algumas coisas, mas eu peço ao senhor que, se eu houver visto demais, que o senhor fale francamente comigo como sempre o fez.
— Nossa fia Ligia! Mas por que todo este alvoroço?
— Por que se na penúltima roda que o senhor participou eu percebi que a fumaça dos charutos funciona como a água de um chuveiro, nesta última roda parece que eu vi o que funciona como uma espécie de sabão ou sabonete.
A entidade deu um discreto sorriso para sua cambone e esta tornou a dizer-lhe:
— E então Senhor caboclo? Eu vi coisa onde não existia?
— De forma alguma fia! Suncê só viu o que havia para ver!
— Nossa, mas o senhor fala isto de uma maneira tão calma!
— E qual é o espanto nisto fia?
— Por que o desconhecido assusta um pouco e eu não sei nem um pouco do que eu vi.
— Fia, mas é como suncê mesma disse antes: o que tem de assustador em se tomar uma boa ducha?
— Ducha?
— É fia ou, como suncês encarnados mesmo dizem uma boa chuveirada!
— ?????
— Fia conte pra este caboclo o que foi que suncê viu!
— Bem, enquanto o senhor dava umas baforadas em uma pessoa da roda de descarrego milhares de minúsculos seres ficavam a rodear esta assistência em questão sempre na direção da cabeça para os pés. Estas espécies de seres giravam numa velocidade absurdamente alta e direcionada como se estivessem sendo controlados por alguém a distância. Eles apareciam e sumiam como que por encanto quando o senhor terminava o trabalho em uma pessoa participante da roda de descarga e passava para outra. Bom, foi isto que eu vi.
— A fia só está se esquecendo de um detalhe fundamental em tudo que observou da participação deste caboclo na última roda de descarrego!
— Verdade?
— Fia, fale uma coisa pra este caboclo!
— Sim senhor!
— Segundo a sua observação, participar desta última roda de descarrego foi mais fácil ou mais difícil do que a penúltima em que este caboclo participou?
— Ah, é verdade! Bom quem estava na dinâmica do trabalho lá na roda é o senhor, mas para mim que observava dava a nítida impressão que o senhor conseguia realizar o trabalho com muito mais facilidade, tendo em vista que na penúltima roda parecia que o senhor se concentrava muito mais para poder fazer o seu trabalho do que nesta última.
— Não foi impressão sua fia: para este caboclo, trabalhar nesta ultima roda, foi muito mais fácil que na penúltima e você fia teve uma grande parcela de responsabilidade para que caboclo obtivesse esta facilidade.
— Eu?
— Claro fia, não é suncê que é a cambone deste caboclo?
— Sou eu sim senhor, mas não sei dizer qual foi minha contribuição!
— Pense um pouco minha filha! Qual foi a grande diferença entre a penúltima e a última vez que suncê entregou o pito para este caboclo antes dele participar das rodas?
— Na ultima vez, diferentemente da penúltima, eu fiz uma prece ao Criador pedindo bênçãos para todas as assistências que participariam das rodas. Foi isto senhor caboclo? A prece que fiz a Deus?
— Fia toda prece a Tupã é sempre muito válida em nosso trabalho de fazer a caridade, mas suncê pode relembrar para este caboclo o que suncê possuía em mãos quando proferiu a referida prece?
— Meu Deus é verdade! Em minhas mãos estava o charuto do senhor!
— Exatamente fia! E então, suncê descobriu por que caboclo agradece suncê a cada vez que pede o pito dele?
— O senhor me desculpe, mas é que eu ainda não consegui chegar lá!
— Então este caboclo não vai mais fazer mistério fia: Caboclo agradece a suncê por que a cada vez que sunce entrega o pito de volta pra ele, acaba entregando junto boa parte de sua firmeza, de sua vibração, de sua energia.
— Eu???
— Não só suncê, mas cada cambone que trabalha junto a cada mano caboclo que milita em cada terreiro de Umbanda neste mundo de Tupã Nosso Pai.
— Isto é surpreendente!
— Antes da última roda que caboclo participou suncê fez prece sentida a Tupã e entregou o pito pra caboclo trabalhar cheio destas sutilíssimas e importantíssimas vibrações do desejo de caridade ao próximo.
— Sim, mas eu devo ser sincera e dizer que só fiz isto da última vez.
— Este caboclo sabe.
— Mas se das outras vezes que eu segurava o charuto do senhor eu não fazia prece alguma por que o senhor, mesmo assim, me agradecia?
— Independente de suncê fazer preces ou não, a cada vez que suncê entrega o pito para caboclo, suncê passa muito de sua energia para ele.
— Mas e se eu não estiver com energia boa no dia da gira? Eu vou acabar passando o pito para o senhor impregnado com minhas energias não muito positivas, mesmo assim o senhor me agradeceria?
— Já houve alguma gira que suncê entregou o pito pra Caboclo e ele não lhe agradeceu?
— Não senhor!
— Mas já houve giras em que suncê veio trabalhar com uma energia não muito boa, não é verdade?
— Isto é verdade, mas então por que o senhor sempre agradece?
— Fia, na verdade, o que caboclo agradece é a oportunidade de trabalho no bem que suncês dá pra nós. Umbanda é parceria fia!
— Desculpe, mas como é?
— Parceria fia: estar juntos por um objetivo em comum. Quando suncês cambones estão bem, então suncês fazem preces ou não as fazem, mas entregam o pito para nós com as energias boas que suncês estão naquele dia para nós trabalhar em favor do próximo, não é assim?
— É sim senhor!
— Já quando é suncês que não estão bem, daí somos nós que fazemos preces ao Criador, enquanto seguramos o nosso pito, rogando que suncês possam encontrar melhoras para as dificuldades de suncês e ajudar nós a trabalhar em nome da caridade cada vez mais e melhor e daí, somente após esta prece fervorosa, é que nós entregamos o pito de volta pra suncês segurar a fim de que, captando um pouco de nossa energia que deixamos no pito, suncês consigam encontrar um pouco de lenitivo que o merecimento de suncês lhes facultar.
— Meu Deus, mas isto é lindo!
Assim exclamou Ligia com a voz embargada de emoção pungente e sincera.
— Isto é Umbanda fia e Umbanda, como caboclo disse, é parceria: quando suncê não está bem e entrega o pito impregnado de energias não muito positivas para caboclo, ele então, quando pega este pito das suas mãos, agradece a suncê pela oportunidade que suncê está dando a ele de trabalhar junto a Tupã objetivando a sua melhora energética, vibracional.
— Nossa pelo que o senhor me diz a Umbanda é parceria mesmo, hein?
— Com certeza fia e é por isso que cada vez que um mano caboclo pede o pito de volta para seus cambone ele só tem a agradecer a este.
— Mas o ideal, quando o cambone não está bem, é fazer sempre preces, pedir auxílio a alguma entidade e ficar vigilante para sua vibração não cair e, assim, dificultar o trabalho das entidades, não é assim?
— Certamente não é fia!?! Mas este caboclo sabe que a filha põe em prática aqui no terreiro muito do que acabou de perguntar pra caboclo, não é verdade?
— Infelizmente não é sempre, mas graças a Deus acaba sendo a maioria das vezes, mas...
A voz de Lígia mal conseguia sair dos seus lábios tamanha era a emoção de estar aprendendo coisas tão básicas e importantes para o bom andamento de uma gira, mas de uma forma simples e prática. Mesmo percebendo a dificuldade de Lígia em falar, devido à emotividade, o caboclo incentivou-a dizendo:
— Pode falar fia.
E, fazendo um esforço grandioso para não embargar a sua voz com uma honesta emoção, foi que Lígia disse:
— Sabe o que eu acho mais lindo na Umbanda em relação a tudo isto que o senhor acabou de revelar para mim?
— A voz de suncê está embargada não é fia? Embargada de singela emoção por contemplar a prova do que disse Jesus sobre a simplicidade da misericórdia e benevolência das coisas de Deus materializada na religião de Umbanda pela presença de um simples charuto de caboclo, não é verdade fia?
As lágrimas de agradecimento por estar tendo aquela preciosa conversa com o caboclo deslizavam aos borbotões pela face de Ligia e esta emoção tão bonita e sincera a impedia de proferir qualquer resposta em relação à indagação feita pela entidade e ela, assim, só pôde respondê-lo positivamente acenando com a cabeça.
O caboclo então continuou a conversa dizendo:
— Caboclo agradece a Tupã pela parceria entre suncê e este caboclo e respeita cada lágrima de gratidão ao Criador que está deslizando pelo seu rosto, mas deve solicitar licença por um breve instante neste seu processo de agradecimento para pedir a suncê que devolva o pito deste caboclo para que ele possa participar de mais uma roda de descarrego em nome da caridade ao próximo.
As lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto de Ligia e ela, assim, só pôde estender as mãos para devolver o charuto sem nada conseguir dizer a entidade.
A entidade pegou o charuto nas mãos, deu as costas para Ligia, andou um passo a frente e ficou parado de costas para sua cambone.
Talvez fosse para substituir um pouco daquelas lágrimas de alegria por um sorriso singelo feito da mesma emoção, talvez não, o fato foi que o caboclo novamente virou-se de frente para Ligia e disse:
— Pensou que caboclo houvesse se esquecido desta vez não é fia Ligia? Mas este caboclo não esquece nunca de agradecer a suncê por haver segurado por mais uma vez o pito dele. Que Tupã abençoe em dobro toda a atenção que suncê dispensa a este caboclo nesta nossa parceria e que seja abençoada também a parceria que Tupã tem com todos nós através da nossa sagrada e amada religião de Umbanda.
Ao que Lígia, já um tanto refeita em suas emoções, respondeu:
— Que assim seja!!!!!





Mensagem de um caboclo canalizada por Pedro Rangel em 27/01/2010

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Surpresa de médium

Minha mãe sempre diz que eu sou cavalo de Ogum! – A informação foi dada nem ele mesmo sabia por quê. A bela mulher cravou-lhe olhos sobre e falou com uma voz rouca que não disfarçava um leve sotaque:
- Adoro Ogum, orixá guerreiro!
- Ah! Eu também gosto muito – mentia para agradar, não tinha afinidade alguma com nenhum orixá – Só não sei se gosto de ser cavalo de alguém...
- Bobinho é só um modo de falar. Os antigos diziam que os orixás cavalgavam seus médiuns, por isso a associação com o cavalo.
Benê não estava ouvindo nada, observava a linda mulher a sua frente. Negra, alta de corpo perfeito contava ainda com dois atrativos que o surpreenderam. Os olhos de um verde infinito e os cabelos que caiam em cachos louros pelos ombros.
Fazia apenas duas horas que a conhecera. Sua mãe fizera de tudo para que ele fosse ao terreiro da mãe Nininha com ela, mas ele não gostava. Cada vez que ia somente ouvia sermões – Desenvolva! Acerte sua vida! Seus orixás querem trabalho! – Não queria. Hoje não. Alegou compromissos e mesmo sem ter marcado nada com ninguém apareceu no salão.
Como era de se esperar não havia nenhum conhecido. Sentou-se junto ao balcão e tomando uma cerveja, passou a apreciar os casais que dançavam. De repente um samba explodiu nas caixas de som. No meio do salão ela surgiu, negra, linda, loura, suntuosa. .A partir desse momento não conseguiu mais despregar os olhos daquela visão. O samba parecia ter sido composto para ela, cadenciando cada requebro do quadril generoso. Por duas vezes ela piscou-lhe deixando-o embasbacado.
Apresentaram-se ao final da música. Irma, esse era o nome da linda moça. Sem ter idéia de como o assunto começou Benê contou que estava ali fugindo de ir ao terreiro.
- Você não devia fazer isso meu querido! Se é obrigação temos que cumprir! – o sotaque o deixava em suspenso cada vez que ela falava. De onde seria? – Eu sou Yalorixá e se estou aqui hoje me divertindo um pouco é porque não tenho compromissos no terreiro.
- Eu gosto, acho bonito, mas não consigo acreditar nesse negócio dos santos virem a terra para ajudar alguém, parece conversa fiada.
- Querido você está muito enganado. Se eles não estivessem sempre junto de nós, você acha que estaríamos aqui em um salão de baile discutindo a respeito deles sem ao menos nos conhecer direito?
Passaram duas horas conversando, Benê tinha certeza que sairiam dali para o motel. Ledo engano a moça só queria falar de santos, orixás, obrigações. Na hora da despedida ela o surpreendeu, queria caminhar. E lá se foram pelo caminho sem mudar o assunto.
De repente ela parou:
- Vou ficar por aqui!
- Como? Aqui não tem nada é só um terreno abandonado...
- Mas é aqui que eu fico meu querido! Correu para o descampado, rodopiou fortemente e gritou, um grito profundo e cortante, antes de sumir no ar - Hei!
Benê ajoelhou-se no meio da rua e entendeu tudo, tinha passado algumas horas com Iansã guerreira. De sua garganta uma louvação rouca surgiu:
- EPARREI OYA! SALVE MINHA MÃE!

Lições de preto-velho



Cenário: reunião mediúnica num Centro Espírita. A reunião na sua fase teórica desenrola-se sob a explanação do Evangelho Segundo o Espiritismo.
Os membros da seleta assistência ouvem a lição atentamente. Sobre a mesa, a água a ser fluidificada e o Evangelho aberto na lição nona do capítulo dez: "O Argueiro e a trave no olho". Dr. Anestor, o dirigente dos trabalhos, tecia as últimas considerações a respeito da lição daquela noite. O ambiente estava impregnado das fortes impressões deixadas pelas palavras do Mestre: "Por que vês tu o argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu?". Findos os esclarecimentos, apagaram-se as luzes principais, para que se desse abertura à
comunicação dos Espíritos. Um dos presentes fez a prece e deu-se início às manifestações mediúnicas. Pequenas mensagens, de consolo e de apoio, foram dadas aos presentes. Quando se abriu o espaço destinado à comunicação das entidades não habituais e para os Espíritos
necessitados, ocorreu inesperado: a médium Letícia, moça de educação esmerada, traços delicados, de quase trinta anos de idade, dez dos quais dedicados à educação da mediunidade, sentiu profundo arrepio percorrendo-lhe o corpo. Nunca, nas suas experiências de intercâmbio, tinha sentido coisa parecida. Tomada por uma sacudidela incontrolável, suspirou profundamente e, de forma instantânea, foi "dominada" por um Espírito. Letícia nunca tinha visto tal coisa: estava consciente, mas seus pensamentos mantinham-se sob o controle da entidade, que tinha completo domínio da sua psiquê. O dirigente, como sempre fez nos seus vinte e tantos anos de prática espírita, deu-lhe as boas vindas, em nome de Jesus:
-Seja bem vindo, irmão, nesta Casa de Caridade, disse-lhe Dr. Anestor. O Espírito respondeu: "Zi-boa noite, zi-fio. Suncê me dá licença pra eu me aproximá de seus trabaios, fio?".

- Claro, meu companheiro, nosso Centro Espírita está aberto a todos os que desejam progredir, respondeu o diretor dos trabalhos. Os presentes perceberam que a entidade comunicante era um preto-velho, Espírito que habitualmente comunica-se em terreiros de Umbanda. A entidade comunicante continuou: "Vós mecê não tem aí uma cachaçinha pra eu bebê, Zi-Fio ?". - Não, não temos, disse-lhe Dr. Anestor. Você precisa se libertar destes costumes que traz de terreiros, o de beber bebidas alcoólicas. O Espírito precisa evoluir, continuou o dirigente. " Vós mecê não tem aí um pito? Tô com vontade de pitá um cigarrinho, Zi-fio". - Ora, irmão, você deve deixar o hábito adquirido nas sessões de Umbanda, se queres progredir. Que benefícios traria isso a você? O preto-velho respondeu: "Zi-preto véio gostou muito de suas falas, mas suncê e mais alguns dos que aqui estão, não faz uso do cigarro lá fora, Zi-fio? Suncê mesmo, não toma suas bebidinhas nos fins de sumana? Vós mecê pode me explicá a diferença que tem o seu Espírito que bebe whisky, no fim de sumana, do meu Espírito que quer beber aqui? Ou explicá prá mim, a diferença do cigarrinho que suncê queima na rua, daquele que eu quero pitá aqui dentro?". O dirigente não pôde explicar, mas ainda tentou arriscar: - Ora, meu irmão, nós estamos num templo espírita e é preciso respeitar o trabalho de Jesus. O Espírito do preto-velho retrucou, agora já não mais falando como caipira: " Caro dirigente, na Escola Espiritual da qual faço parte, temos aprendido que o verdadeiro templo não se constitui nas quatro
paredes a que chamais Centro Espírita. Para nós, estudiosos da alma, o verdadeiro templo é o templo do Espírito, e é ele que não deve ser profanado com o uso do álcool e fumo, como vem sendo feito pelos senhores. O exemplo que tens dado à sociedade, perante estranhos e mesmo seus familiares, não tem sido dos melhores. O hábito, mesmo social, de beber e fumar deve ser
combatido por todos os que trabalham na Terra em nome do Cristo. A lição do próprio comportamento é que é fundamental na vida de quem quer ensinar". Houve profundo silêncio diante de argumentos tão seguros. Pouco depois, o Espírito continuou: " Desculpem a visita que fiz hoje e o tempo que tomei do seu trabalho. Vou-me embora para o lugar de onde vim, mas
antes queria deixar a vocês um conselho: que tomassem cuidado com suas obras, pois, como diria Nosso Senhor, tem gente "coando mosquito e engolindo camelo". Cuidado, irmãos, muito cuidado. Deixo a todos um pouco da paz que vem de Deus, com meus sinceros votos de progresso a todos que militam nesta respeitável Seara". Deu uma sacudida na médium, como nas manifestações de Umbanda, e afastou-se para o mundo invisível. O dirigente ainda
quis perguntar-lhe o porquê de falar "daquela forma". Não houve resposta. No ar ficou um profundo silêncio, uma fina sensação de paz e uma importante lição: lição para os confrades meditarem.
José Queid Tufaile

Agradecimento

Vagarosamente anda em direção ao mar. Sente a areia molhada afundar sob a pressão de seus passos. A primeira onda, fria, envolve seus pés e arrepia seu corpo inteiro. Não saberia explicar e emoção que a invade enquanto avança . A cada onda que chega, respeitosamente baixa a mão, sente a água e levanta os dedos que fazem o sinal da cruz. Rosana vê a imensidão azul a sua frente através dos olhos marejados. Nunca havia pensado que seria tão grandioso o momento daquela entrega. Tudo havia começado há alguns meses atrás, mais exatamente, onze meses. Chegara ao terreiro de Dona Alzira completamente sem rumo. Depois de passar por uma gravidez cheia de problemas sua filha Sabrina nascera de apenas cinco meses de gestação, estava na incubadora há mais de dois meses e os médicos não lhe davam esperança alguma de vida. Cada vez que visitava o bebê saia mais depressiva. A imagem não era nada agradável e tudo levava a crer que era uma questão de horas apenas. Aconselhada por uma vizinha chegou ao terreiro em um dia de consulta com os preto-velhos. Rosana sempre foi católica, não de ir á missa todo domingo, mas orgulhava-se de estar na igreja pelo menos uma vez no mês, coisa que a grande maioria das pessoas não fazia, mesmo dizendo-se católicos natos. Alzira estava incorporada com Vovò Catarina que a atendeu com carinho e gentileza. Rosana chorou muito, parecia estar em contato com sua avó que falecera há muitos anos e ela nem chegara a conhecer. A preta-velha levou-a até a imagem de Iemanjá e disse : - Fia conte tudo prela. A grande mãe vai te ajudar! Naquele momento, um turbilhão de emoções tomou conta de Rosana e ela aos prantos pediu: - Minha mãe, tire meu bebê do hospital, faça com que ela se salve e eu prometo que levarei um lindo presente para ti! A velha que tudo ouvia falou sabiamente: - Num é perciso oferecer nada fia! Basta fé e confiança. Ela vai te ajudar! Rosana saiu de lá revigorada, parecia que achara o caminho. E foi exatamente o que aconteceu. Uma semana depois o médico responsável chamou-a: - Mãe, sua filha teve uma recuperação milagrosa já podemos mandá-la para casa! Por isso estava alí, na praia, andando em direção ao mar... As lágrimas já não se insinuavam, corriam livremente. Rosana levou as mãos ao pescoço e tirou uma linda corrente de ouro com um pingente de esmeralda que havia ganhado de seu marido. - Mãe Iemanjá, sagrada senhora! Sei que nada quer de mim, mas além do agradecimento que aquece meu coração, desejo que fique com esse mimo. Jogou a corrente na sétima onda que passava por ela nesse instante. Conforme recomendado deu sete passos para trás e virou-se para a praia. Ao longe avistou a querida Vó Catarina com sua pequena Sabrina nos braços. Nesse pequeno instante a felicidade estava em suas mãos...
Luiz Carlos Pereira

Uma visita inesperada

Dezoito horas. A penumbra da noite começa a cair sobre a pequena casa isolada no alto da colina. Quem passa pela estrada não consegue imaginar como alguém pode viver ali. Cândida mora na casinha com seu único filho, Thiago, de cinco anos, não por opção, mas por ter sido a única saída quando foi abandonada pelo marido depois de um casamento conturbado. Começa a procurar pelas velas que acenderá nos dois pequenos cômodos, quando batem à porta. A mulher se assusta, nunca aparece ninguém nesse recanto afastado do mundo. Quem seria? Ao abrir depara-se com uma senhora negra, a avançada idade denunciada pelos cabelos totalmente brancos. - Minha filha, me dê um copo com água pelo amor de Deus, estou andando desde o meio-dia e já não agüento mais de cansaço e sede. Cândida olhou para aquela mulher e sentiu profundo dó, usando roupas surradas e carregando uma imensa sacola, deveria realmente estar muito cansada. - Entre dona, sente um pouco que lhe darei água e um cafezinho. - Muito obrigada, minha querida, vou aceitar. Em poucos minutos ambas trocam informações e conhecem um pouco da vida sofrida de cada uma como se fossem velhas conhecidas. De repente do quarto contíguo vem um gemido. - Seu menino está doente, minha filha? - Está dona Maria, com um febrão enorme, já fiz de tudo e ela não baixa, hoje já chorei demais e se ele não melhorar, sairei de madrugada para procurar socorro médico.
- Vamos lá ver isso. Sou benzedeira sabe? Na meia hora seguinte, dona Maria tomou conta da situação, abriu sua sacola, tirou ervas, mandou que se preparasse um banho, com outras pediu que Cândida fizesse um chá. Banhou o menino, deu-lhe o chá, sentou-se com ele no colo e rezou por muito tempo. Findas as orações, colocou o garoto adormecido na cama, a febre havia passado. A mãe não sabia como agradecer aquela senhora. Ofereceu-lhe pousada. - Não minha filha, tenho que ir, muita gente me espera. Deu algumas ervas com as recomendações necessárias para seu uso e dirigiu-se para a porta agradecendo e se despedindo. De súbito virou-se e perguntou: - Minha filha, só uma pergunta. Aquela vela em seu altar queimando, é para quem? - Ah dona Maria, aquela vela, mantenho sempre acesa para a Mãe Cambinda, minha preta-velha de devoção! - Que linda é a fé não minha querida? Bem tenho mesmo que ir, até um dia! Com seu andar vagaroso afastou-se. Quando já estava a uns dez passos virou-se: Minha filha! - Sim? Respondeu a moça - Obrigado! - Obrigado por quê? Eu que tenho que agradecer. E a velha senhora respondeu: - Obrigado pela vela, minha querida... Pela vela! Virou-se novamente para o caminho e sob os olhos marejados de Cândida, Mãe Cambinda da Guiné desapareceu no ar

Mandinga de Preto-Velho!



Certo dia uma pessoa procurou ajuda de nego-velho para solucionar uns probleminhas. Compareceu na casa espírita e desfiou um rosário de lamentações à pessoa que o atendeu.
A resposta de pai velho veio logo em seguida, através do receituário mediúnico:
“Levante pela madrugada, mais ou menos às 4 horas. Colha então algumas rosas brancas no roseiral que está plantado no fundo do seu quintal e, ao fazê-lo, sinta seu aroma. A cada rosa arrancada do pé, faça uma oração pedindo a Deus que o abençoe, bem como aqueles que ama. Depois, dirija-se à cozinha, ponha água no fogo e, enquanto ferve, meu filho, procure o Evangelho e faça uma leitura, preparando assim o ambiente de sua casa para a mandinga de nego-velho. A seguir, coloque as rosas dentro da água fervendo, apague o fogo e abafe. Enquanto aguarda para que esfrie um pouco, vá tomar um banho de asseio, lavando-se todo, da cabeça aos pés. Quando estiver debaixo do chuveiro, ore e feche os olhos, reparando atentamente na água que cai em seu corpo. Enxugue-se e pegue a água de rosas, derramando-a pelo corpo. As rosas que foram cozidas devem ser jogadas em água corrente, no riacho que fica um pouco distante de sua casa. Saia com as rosas embrulhadas e vá cantando uma cantiga qualquer, daquelas que transmitem felicidade. Por fim, volte para casa e, do jeito que puder, deite-se, pois ainda não terá amanhecido o dia. Lembre-se de aproveitar as oportunidades que se fizerem presentes.”
Quando o médium viu o receituário, ficou estarrecido com nego velho. Questionou a eficácia do banho, as orações, o horário que deveriam ser feitas e a fórmula dada para aquele caso particular. Nego velho pensou um pouco e depois respondeu ao médium:
“Sabe meu filho, as rosas servem para perfumar o ambiente e o corpo do nosso companheiro. É que ele reclama que o casamento vai mal, que sua companheira está evitando-o sempre e que ela agora arranjou um trabalho noturno do qual ele está desconfiado. Mas sabe, meu filho, é que o marmanjo não gosta muito de tomar banho, e com aquele cheiro não tem mulher que agüente a situação. Conhecendo a fé do homem em nego-velho, resolvi dar um empurrão no relacionamento. Ele também não gosta muito de estudar o Evangelho nem de rezar. Porém, ajuntando tudo numa receita de pai-velho ele vai seguir à risca. Passará então a se levantar muito cedo, apanhar as rosas, tomar um bom banho e meditar debaixo do chuveiro. Quando despeja o banho de rosas no corpo, então se perfuma todo, e, aí, nego-velho o induz a levar as rosas restantes do banho para jogar no riacho que fica um pouco distante de sua casa, ainda de madrugada. Sabe por quê meu filho? É que a mulher dele é enfermeira e retorna do plantão noturno exatamente naquele horário, de ônibus, e é obrigada a andar sozinha por um bom pedaço até chegar em casa, mesmo na escuridão da noite. Quando for até o riacho, já está na hora da mulher chegar. O resto você já sabe, meu filho, é só confiar na natureza e as coisas se resolvem. Isso é mandinga de nego-velho.”
Ao ouvir a explicação, o médium pegou a receita e entregou ao consulente. O caso se resolveu em alguns dias. Nosso irmão precisava apenas de um empurrão para aprender a tomar banho e se perfumar e de uma desculpa para agradar a mulher, apanhando-a no ponto de ônibus. Nego-velho riu muito ao saber que os dois haviam se reconciliado graças a um banho despretensioso, feito de rosas, e algumas orações acompanhadas de meditação debaixo do chuveiro.
Muita gente, meu filho, tem necessidades as mais estranhas, mas que costumam se resolver com pequenas receitas de paz, diálogo, orações e - quem sabe? – um pouco de higiene também.
Capítulo 14 do livro “Alforria”
espírito “pai João de Aruanda”
médium robsom pinheiro

EXU DO RIO



Põe mais um pro “Coroné”.
Estávamos no meio de uma gira de Quimbanda, entre uma consulta e outra,
quando o seu Exu do Rio virou para mim (seu cambone) e disse:
- Põe mais um conhaque aí pro “coroné”!
Observando minha expressão de curiosidade, emendou:
- “Qué sabe por que coroné”? Depois te conto.
Ao fim daquela proveitosa noite de trabalhos, seu Exu do Rio mandou que eu
me sentasse à sua frente e contou-me a seguinte história:
“Sabe, fio, eu era coronel. Desses que tem terra, possui muito dinheiro,
muito poder. E, tendo poder, eu podia ajudar muitas pessoas. E vinha muita
gente me pedir, mas eu não ajudava ninguém não.
Eu tinha muitas escravas e aprontava com todas. Tinha uma negrinha que
trabalhava na casa, era a minha preferida. Eu “tava” sempre com ela, vivia
“me deitando” com a dita cuja. Até que ela engravidou. Foi aí que eu resolvi
me casar.
Mas não pense que o coronel ia se casar com a negrinha, não! Eu mandei vir
da cidade uma moça branca, jeitosa e de boa família para ser minha esposa. E
casei.
Bom, como já disse, eu era muito rico e poderoso e tinha muitas terras,
muita riqueza mesmo. Um dia, saí com meu cavalo pelas minhas propriedades,
cavalgando pelo mato, sem rumo, só para me distrair um pouco. Eu estava
beirando um rio que eu gostava muito, o Rio Grande. Eu adorava aquele rio.
Foi quando ouvi umas vozes.
Apeei do meu cavalo e fiquei escutando aquela conversa; era a negrinha
conversando com a minha donzela. Notei que esta chorava, enquanto a escrava
sorria. Não precisei pensar muito para deduzir o que aconteceu: a negra
contou que estava “embuxada”, e que eu era o pai.
Quando eu vi num olhar tristeza, e no outro, satisfação, não tive dúvidas:
agarrei as duas e afoguei os dois olhares no rio que eu tanto amava!
Esse é o motivo do meu nome, Exu do Rio, porque eu matei minha mulher,
minha amante e meu filho afogados. Mas não é por isso que eu trabalho como
Exu hoje na Umbanda, quer dizer, não só por isso. Eu cometi muitos e muitos
erros enquanto encarnado e agora tenho que reparar isso tudo trabalhando
aqui. Essa história é só o motivo do meu nome. E,se eu fizer direito meu
trabalho, eu posso (depois de muito tempo e esforço) voltar como boiadeiro,
buscando sempre reparar o meu mal, ajudando os outros.”
Terminada essa interessante e triste comunicação, fiquei olhando por algum
tempo para seu Exu do Rio, que logo soltou aquela sua gostosa gargalhada e
disse:
- “Bão, fio, isso é passado, e agora nós temos mais é que viver o presente.
E ta na hora de eu í me embora, porque já tão mandando! Sarabumba, rapaz!”.
- Sarabumba, meu pai.

Casos de Criança

Algumas vezes, ficamos deslumbrados com a eficiência de seus trabalhos. Seguem-se duas narrações de casos resolvidos pelas crianças.



Uma vez telefonou-me um fazendeiro assustado pelas mortes de seu gado. Achava ser trabalho feito. Ele foi no terreiro tendo sido atendido normalmente. No final do trabalho uma criança incorporada chamou-o e, com uma pemba, fez um desenho no chão como se fosse um mapa todo recortado. No meio desenhou três corações e um risco como um rio, fazendo um encontro com outro. “Tio”, falou, “os corações simbolizam seus três filhos.” O homem confirmou. Mostrando o mapa, disse ser a sua casa construída com vários pedaços. O homem explicou ter sua fazenda sido constituída por várias áreas. Apontando exatamente no encontro dos riscos, disse estar ali o problema, estando a água cheia de veneno e onde os bichinhos do tio estavam morrendo. Mais tarde o fazendeiro telefonou-me dizendo estar a água do rio realmente envenenada por agro-tóxico.



Outra vez, no encerramento do trabalho uma experiente médium deu sinais de incorporação de criança. Ela incorporou e batendo palmas, veio ao meu encontro pedindo um dólar. “Um dólar?” Respondi. “O que você vai fazer com um dólar?” Ela insistiu: “quero um dólar”. Achamos graça. A cena foi alegre e descontraída. “Alguém tem um dólar para a criança?” perguntei ironicamente. Da assistência uma moça fez sinal afirmativo. Fiquei perplexo. Somente eu conhecia o seu problema. Tinha câncer maligno nas cordas vocais e testava com a cirurgia marcada. Da ironia à seriedade, convidei a moça para entrar no terreiro e fazer a entrega do dólar ao erê. A entidade fez festa ao dólar, deixou-o de lado e agarrou-se na garganta da moça fazendo-lhe leves passes magnéticos. Ela fez a cirurgia na terra, mas está curada.

FONTE ORIGINAL :



Sociedade Espiritualista Mata Virgem

Conversa com um Executor da Lei



          Certo dia desses, estava em um terreiro e ouvia um irmão reclamar que estava passando por um momento de “turbulências” em sua vida.
Nada dava certo...
Perdera o emprego, uma doença o acometera e sua relação com sua esposa estava cada vez pior.
Ele reclamava... e reclamava... quando notei a aproximação de um guardião próximo a ele e pude observar a conversa.
         Esse irmão médium também notou a aproximação e tomou a iniciativa de começar a conversa: 
- Salve Senhor Guardião!
         - Salve moço, está reclamando de que ai?
        - Sabe seu Guardião, minha vida anda bem complicada, cheia de problemas.
- Você ainda não viu problema de verdade moço.
- Não vi? Perdi meu emprego, estou doente, brigo todo dia com minha esposa, o Senhor não está vendo?
- Estou sim... Sou eu que estou lhe aplicando um corretivo.
- O Senhor? Como assim? O que eu fiz para ser castigado?
- Você não sabe moço?
- Não, não sei. Eu sempre faço tudo direitinho.
- Hahahahaha. – Soltou uma longa gargalhada e falou:
         - Moço, pare de se lamentar e preste atenção em sua vida, em seus atos, suas palavras, sentimentos e em tudo que você faz. Se eu estou atuando em sua vida dessa forma é por que pela Lei estou amparado, pois sou um Executor da Lei Maior e, se estou amparado, é por que você merece o castigo.
         - Mereço o castigo?
- Moço, como você reage ao sucesso de seus colegas de trabalho.
- Ex-colegas o Senhor quis dizer, não é? Agora não tenho emprego mais.
- Sim, moço, ex-colegas.
- Bem...
– Ficou pensativo e o Guardião continuou:
- Sentia inveja deles, praguejava e quando tinha oportunidade fazia fofocas e os prejudicava, correto?
- Está certo Guardião, eu agia assim mesmo. – Reconheceu o médium.
- Mesmo depois de todos os seus guias lhe avisarem, correto?
- Sim Senhor. – respondeu abaixando a cabeça.
         - Moço, quando alguém erra sem conhecimento, sem saber que está errando, a Lei Maior dá um jeitinho de avisá-lo, mas quando esse alguém depois de ser avisado continua errando, ai a Lei Maior executa a sentença determinada pela Justiça Divina.
         - Entendo Senhor.
         - Esse é um exemplo dos erros que você vem cometendo mesmo após ser avisado e que por isso e por mais algumas coisas está passando por essa pequena execução da Lei Maior.
         - E como faço para me livrar dessa execução Guardião?
- Precisa primeiro parar de se lamentar e começar a aprender com tudo isso que está acontecendo.
Comece a mudar seu íntimo e a corrigir seus atos.
Desta forma, terá sua sentença amenizada ou suspensa de acordo com seu esforço e merecimento.
         - Está bem Guardião, vou me esforçar para parar de reclamar e mudar isso tudo.
         - Tudo aquilo que você fizer de correto moço e que representar uma mudança positiva em sua vida, será contada como ponto positivo e, por mim, essa ação será amparada e utilizada para amenizar sua sentença. Mas tudo aquilo que você fizer que representar um ponto negativo, por mim também será anotado para pesar em sua balança e você responderá por ele.
- Obrigado Senhor Guardião por me instruir e permitir corrigir meus erros!
- Agradeça ao Pai Maior moço, pois é Ele quem permite a todos o aprendizado e a evolução. Salve moço!
- Salve Senhor Guardião.
Eu que acompanhava a conversa toda fiz a mesma coisa, agradeci ao Pai Maior pela oportunidade de participar de tão grande lição.
         Salve os Senhores Executores da Lei Maior que nos permitem aprender com as adversidades da vida.
Laroyê!
Por André Santos