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segunda-feira, 28 de março de 2016

Pai Serafim de Aruanda

O Mensageiro de Ifá.

Serafim nasceu em Senzala Carioca, no ano de 1673. Seus pais eram escravos convertidos ao catolicismo e por isso ele recebeu o nome de "Serafim" - o Mensageiro do Senhor. Ele foi uma criança travessa, mas obediente, que aprendeu desde cedo o catecismo. Mas, algo dentro dele se incendiava quando ouvia falar dos Orixás. E assim, sempre que podia, Serafim ia até a casa de Nega Nhonha, a benzedeira da Senzala. Ele lhe pedia que contasse as histórias dos Santos Africanos e de suas tribos.
Nega Nhonha percebeu que ali estava alguém para prosseguir com sua missão e começou a ensinar ao menino tudo o que sabia da tradição. Procurou a mãe de Serafim e lhe pediu permissão para educar o menino. Josefa, a mãe de Serafim, fez apenas uma ressalva: não queria que o menino sofresse perseguições. Então Nega Nhonha ensinava, mas pedia a Serafim que não comentasse com ninguém o que aprendia.
Quando Serafim completou 17 anos, o ano de 1700 iniciou... D. Josefa ficou doente e parecia ter pouco tempo de vida. Antes de morrer ela pediu ao filho: "Meu filho, quando você puder fuja dessa vida, vá para o Quilombo e pratique a arte de nossos ancestrais. Não esqueça do que aprendeu por aqui, mas também não esqueça nossas raízes". Serafim viu sua mãe morrer e ficou só no mundo. Nunca soube quem era seu pai, pois ele foi vendido logo após seu nascimento.
Serafim já ouvira falar dos Quilombos, mas era difícil fugir da Senzala. Aqueles que haviam tentado foram capturados e açoitados até a morte, para servir de exemplo aos demais. Mas, Serafim, começou a sentir crescer sua vontade de fugir, cada vez maior e incontrolável... Um dia programou sua fuga junto com outros negros. Eles partiriam para um Quilombo nas bandas das Minas Gerais, um local novo e ainda desconhecido.
O dia combinado chegou e ele muniu-se de coragem. Prepararam tudo com antecedência e durante a noite agiram conforme o plano. Muitos capatazes ficavam a espreita, mas eles haviam colocado uma espécie de sonífero na bebida deles e estavam aguardando o mesmo fazer efeito. Quando a bebida fez efeito, eles se reuniram e partiram.
Os escravos seguiam a pé, pelo meio das matas. Eles sabiam que quando o dia amanhecesse seriam perseguidos a cavalo pelos capatazes. Um dos foragidos conhecia as matas e o caminho para o Quilombo, pois já havia seguido com outro grupo certa vez, mas foi capturado - ele sobreviveu porque se entregou e não lutou, então suas chibatadas foram mais amenas.
Com três dias andando a pé, ainda faltava muito para chegar... Eles seguiam devagar e na espreita, mantendo a cautela para não serem descobertos. Naqueles tempos, eles poderiam ser presos por qualquer fazendeiro e entregues ao antigo patrão mediante recompensa. Portanto, eles não podiam ser vistos por nenhuma pessoa. Muitos de sua raça eram contratados dos patrões para entregar os fujões, então eles não podiam confiar em ninguém que não fosse do grupo.
O grupo conseguia avançar em torno de 50 Km por dia e, no final de uma semana, chegaram ao destino. Eles foram bem recebidos pelo chefe do Quilombo e descobriram as vantagens de viver em meio aos "calhambolas". Os Quilombos das Minas Gerais, diferente de outro Quilombos, possuíam algumas vantagens: eram próximos às feiras, podiam comercializar seus produtos e não eram perseguidos pelos Senhores do Mato. Minas Gerais estava crescendo muito e toda mão de obra era bem vinda. Assim, quem vivia nos Quilombos comercializava livremente com os mineradores e podia frequentar as feiras.
Foi nesse meio que Serafim encontrou sua história e reconstruiu sua vida. Começou trabalhando como minerador e trocando com os capitães seus achados, mas em breve sua vida mudaria novamente. Dois anos depois de estar no Quilombo, uma pessoa chegou gritando às pressas por alguém que soubesse curar mordida de cobra. Havia no Quilombo uma Mãe Preta que benzia, mas ela estava adoentada e não atendia mais... Serafim, muito timidamente, ergueu sua mão e disse: "-Eu sei." Os demais até duvidaram, pois ele ainda era jovem e não parecia um benzedor. Mas, na falta de recursos, qualquer um servia... O negro correu e pegou Serafim pela mão, levando-o até a vítima, que já estava semi-morta. Era uma bonita moça, grávida de uns sete meses.
Serafim afastou-se, foi até umas plantas, colheu umas ervas, macerou-as e pediu água quente. Fez um chá e reservou. Com um canivete, fez uma cruz no local da picada e apertou... Depois colocou o sumo das ervas aquecida e enfaixou com um pano. Deu o mesmo sumo para a moça beber e avisou: terei que fazer a criança nascer para que a mãe possa se recuperar melhor.
Naquele tempo, criança de sete meses não sobrevivia e o pai escolheu a vida da mãe. Serafim tinha outros planos e clamou aos seus Orixás pela vida do rebento. Fez suas orações e mandigas e começou a pressionar o ventre da moça. Em pouco tempo ouviu-se o choro de uma criança - era um menino. Serafim disse: tragam leite de cabra e chá de arruda. Deu o chá de arruda para a moça que vomitou muito... Lavou suas parte íntimas com o chá misturado ao sumo e envolveu-a em faixas. Pediu cobertor e disse: ela precisa descansar. O leite de cabra é para o bebê, ele não pode beber leite humano ou de vaca. Enfaixem bem o bebê e não o deixem tomar qualquer friagem ou sol, por sete dias. Somente depois disso, podem trocá-lo e levá-lo a outro lugar...
Depois de uma semana, mãe e filho estavam recuperados e a fama de Serafim correu Quilombos. Começaram a vir pessoas doentes de todas as regiões e até mulheres com problemas para parir procuravam por Serafim. Todos confiavam nele, pois ele era muito respeitoso e as mulheres não corriam qualquer risco. Assim, os anos passaram e Serafim tornou-se o "médico" dos Quilombos. Mas, brancos também o procuravam, quando a medicina dos homens não funcionava mais. Ele se tornou tão respeitado que até os Sinhozinhos o mandavam chamar se algum problema mais sério caísse sobre suas fazendas.
Dez anos depois, Serafim ainda era um homem solteiro. Mas, ele precisava da ajuda de alguém, pois seus serviços eram muito solicitados. Um dia chegou no Quilombo uma negra fugida de Pernambuco. Ela estava muito judiada e Serafim não conseguiu salvá-la. Ela tinha uma filha de quinze anos e disse pra ele: "-Por favor, tome minha filha como esposa, pois sei que você é sozinho. Eu vejo que você é um bom homem e precisa de alguém para ajudá-lo. Ela sabe fazer de tudo e poderá auxiliá-lo nos atendimentos." Serafim temia casar-se, pois havia visto o sofrimento das mulheres e isso o incomodava. Sua mãe havia sido violentada muitas vezes e ele guardava essa dor consigo. Muitos não sabiam, mas ele não havia dormido com nenhuma mulher. Quando a mãe da moça morreu ele levou-a para morar com ele e não a tocou...
Com o tempo, ela aprendeu tudo e o auxiliava nos atendimentos. Ninguém sabia que eles viviam como irmãos. Mas, uma noite, Margarida (esse era o nome da jovem) foi até leito de Serafim e disse: "-Você não me deseja?" Ele respondeu: "-Fiz uma promessa aos meus deuses para que eles me ajudassem nas curas e prometi não me deitar com ninguém." Margarida respondeu: "Façamos outra promessa... Todos os nossos filhos serão Deles e Eles terão servos fiéis, pois os educaremos para isso." Então, Serafim respondeu: "Preciso de três dias..."
Serafim, instruiu Margarida e se ausentou para as matas por três dias. Fez seus rituais e conversou com os Orixás. Então, uma pomba branca lhe pousou no ombro e arrulhou em seu ouvido. Era uma resposta de Ifá e Serafim sabia o que devia fazer.
Ele voltou ao Quilombo e disse a Margarida: "-Podemos nos casar. Nossos filhos serão como os Odus do Búzio." E eles tiveram dezesseis filhos e cada filho pertencia a um Orixá. Quando o último filho completou 16 anos, Serafim o preparou e avisou: "-Você ocupará meu lugar." Ele era filho de Ifá e chamava-se Orumimaia. Serafim, morreu aos 72 anos em seu leito, quando todos os Orixás lhe saudaram e disseram: "-Você fez bem. Você cumpriu sua missão!" Serafim fechou os olhos para a terra e abriu os olhos espirituais, passando a cumprir uma nova missão: a de Pai Velho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Patuá de Preto Velho

Um patuá de Preto Velho pode ser utilizado para diversos fins como:
Talismãs e patuás são um conjunto de amuletos reunidos para determinado objetivo
Talismãs e patuás são um conjunto de amuletos reunidos para determinado objetivo
  1. atrair um amor
  2. afastar alguma pessoa indesejável
  3. arrumar um emprego
  4. crescimento profissional
  5. prosperidade financeira
  6. passar em concursos, passar no vestibular
  7. proteção contra mau olhado, inveja e olho gordo
  8. proteção espiritual contra  espíritos negativos
  9. cura de doenças
  10. estímulo de certos aspectos do ser que devem ser mudados ou ressaltados exemplo: timidez, sensualidade, emagrecimento, etc.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

PAI BENEDITO DE ANGOLA



Pai Benedito de Angola
Pai Benedito de Angola é um velhinho bem simpático, de poucas falas, tem os cabelos e a barba bem branquinhos, olhos castanhos claros e bem negro.
Viveu em Angola entre o ano de 1608 a 1630, logo depois foi vendido como escravo para fazendeiros brasileiros.
Viveu sempre em cativeiro, trabalhando na lavoura de cana-de-açúcar. Naquele tempo já possuía o dom da cura, pois com as ervas já curava os ferimentos de seu povo, que eram feitos através das chibatas dos feitores e do trabalho árduo dos engenhos.
Pai Benedito teve muitos filhos e netos, bisnetos, etc... Morreu aos 98 anos de velhice, cansado daquela vida. Mas antes de morrer tinha esperança na libertação de seu povo e de uma vida digna, em liberdade.
Por serem espíritos que sofreram aqui na terra, são espíritos calmos, de muita sapiência, pois na época a única coisa que possuíam era à força de nosso Pai.
Pai Benedito aqui no terreiro que trabalha na linha de Oxóssi, falange dos Pretos Velhos, é benzedor, mandingueiro, usa ervas e mel em seus trabalhos.
Fuma cigarro de palha, cachimbo e às vezes charutos, toma água com mel e marafo com mel. Gosta de um bom feijão com farinha e rapadura. Seu temperamento é paciente, bom conselheiro, não fala muito. Não aprecia curiosidade inútil.
Trabalha na umbanda e na quimbanda junto com Omulú, quando tem mandinga para ser tirada. Não gosta de injustiça, traição e nem orgulho e soberba de filho que trabalha em cajuá e nem de consulentes.
Usa uma guia de contas de Nossa Senhora com crucifixo de madeira e duas figas uma de arruda e outra de guiné preta e vermelha ou preta e branca. Trabalha com o médium há algumas encarnações. Tem como cambone espiritual Pai Tomé que assume os trabalhos quando está na Quimbanda. Pai Benedito de Angola, trabalha para o homem físico no mundo material e no mundo espiritual, com as ervas de Oxóssi.
Na Umbanda e na Quimbanda seus trabalhos são feitos nas matas e no cemitério, cruzeiros das almas.

terça-feira, 21 de julho de 2015

História de Pai Cipriano




Vamos contar um pouquinho desta história... Era o primogênito de uma família abastada e nobre. Herdeiro direto do trono daquela tribo, ainda bem jovem, por volta dos vinte anos, forte, saudável e cheio de vida, fui iniciado nos preceitos e conceitos religiosos do meu povo. Logo estava recebendo o "Decá" (autorização para a prática religiosa da minha tribo de origem). Foi um espanto geral! Ninguém quis acreditar. Como um menino daquele conseguira um encargo tão valoroso? Talvez por ser o filho primogênito do Chefe tribal. A partir da minha consagração as coisas começaram a ficar difíceis, Os demais membros da minha comunidade não mais me dirigiam a palavra. O ambiente foi ficando insuportável. Afastado da convivência com os outros irmãos, sofrendo discriminação e recebendo vibrações de ódio causadas pelo imenso despeito dos meus irmãos, preferi me isolar e me entreguei cada vez mais à prática dos meus ensinamentos religiosos. Num dia em que sozinho clamava aos Orixás por minha tribo, quando pedia a doce Mãe Oxum que suavizasse o coração dos meus irmãos, sofri uma terrível emboscada. E num dia cinzento, chuvoso, dia em que a tribo não participava tão intensamente do trabalho em grupo devido ao tempo, fui arrancado à força de minha maloca e levado para um lugar distante da minha Luanda, minha querida Angola... Indaguei todo tempo o que se passava, reivindicando a minha posição de membro da família real. Mas mesmo assim fui levado por uns homens estranhos que me carregaram à força, sem piedade, como se eu fosse um animal e eles os caçadores implacáveis. Ali começou o meu martírio. Mas dor maior senti ao avistar por perto três dos meus sete irmãos de sangue. Nesse momento me conscientizei da terrível traição que sofri e que deitou uma profunda ferida na minha alma.

Amarrado como um bicho, passei três dias amontoado em cima de uma carroça, onde cada vez mais eram colocados negros em grande número, uns por cima dos outros, como se faz com pele de animais. E assim fiquei, por baixo daquele amontoado de infelizes, faminto e sedento. Desespero maior eu senti ao ser retirado da carroça e jogado no porão imundo de uma grande embarcação. Dali por diante nós nos unimos em preces, dor e saudade na longa viagem ao Brasil, terra distante e desconhecida. Maltratado durante a interminável viagem, assistindo com horror cenas que jamais poderia imaginar, vi meus irmãos de raça e de religião sendo esmagados em sua hombridade; vi humilhação e revolta no olhar dos meus irmãos de destino; vi o açoite cortar impiedosamente a carne daqueles que ousavam manifestar a menor reação de revolta; vi corpos jogados ao mar e a peste se alastrar, ceifando a vida de muitos irmãos. Apesar do horror do navio negreiro consegui chegar com vida nesta terra distante chamada pelos seus nativos de Brasil. Clamei a Olodumaré por forças, pois pensei que não aguentaria tanta fome e tanto sofrimento dentro daquela embarcação maldita que me obrigava a tomar água salgada, e de barriga inchada deixei n'África distante minha juventude e alegria.
 

Aqui chegando, fui levado para uma feira, como as batatas compradas hoje por vocês, e vendido, pelos dentes fortes e bons que tinha, para uma rica família fazendeira de café. Dei duro dia e noite, trabalhando duro nos cangais, sofrendo mais humilhação, mais dor. "Nego Véio" era humilde e obediente e tudo fazia para agradar aos senhores brancos. Logo fui recompensado pela docilidade, passando a trabalhar para Sinhá dona como escravo de dentro, "catiço” de Sinhá. Por isso, "Nego" sofreu novamente a inveja dos irmãos de cor, que passaram a maltratar o "Véio" na senzala, acusando o "Véio" de não mais pertencer àquela raiz. Como estavam enganados! Se "Nego Véio" pudesse, tirava todos das correntes do cativeiro. "Nego Véio" era apenas obediente e manso. Rejeitado por meus irmãos catiços, procurei aprender escondido com Sinhá moça, linda e formosa, as primeiras letras. "Nego Véio" esperto, logo aprendeu a ler e a escrever. Com isso, passei a fazer as anotações da fazenda. Conquistei a amizade do Sinhô e também acabei despertando, por isso, a inveja do capataz da fazenda, que era ruim "por demais”. O caminho de espinhos ainda não estava longe dos pés do "Véio”, e o destino prega nos "fio" umas brincadeiras ingratas. Bonito, jovem, agora letrado, fui me enamorar por quem nunca deveria sequer levantar os olhos: Sinhá Moça! Mas foi impossível não me prender aos encantos daquela jovem formosa, de pele rosa, carinhosa e doce como uma flor sem espinhos. Até os dias de hoje, quando me lembro, suspiro. E como Zâmbi não separa os filhos por cor quando traça o seu destino, a jovem Sinhá também se encantou com a doçura do "Nego". E o que aconteceu vocês já podem imaginar... "Véio" sucumbiu aos encantos da Sinhá e por isso mais uma vez tive o meu destino mexido e remexido. Fui arrancado, numa noite, da minha esteira, levado para um cemitério distante e lá fui abandonado. O feitor me alertou dizendo que dali não poderia mais sair. Que deveria tomar conta de todas as campas, que comesse o que conseguisse plantar e nunca mais aparecaparecesse nem na Casa Grande, nem na senzala. Pois eu traíra a confiança do Sinhô e que ele só não me matava, porque não queria sujar as mãos com o sangue do pai do neto dele. Ali naquele cemitério, isolado e triste, eu vivi até o fim dos meus dias. Distante de quem eu amei, distante do meu povo... Passei a fazer feitiços fortes para o meu povo, que passou a me procurar quando os feitores estavam bravos com eles, quando adoeciam, quando tinham algum problema. Procuravam a minha rega, a minha magia forte. E o sacerdócio recebido na África, acabei exercendo aqui nesta terra, dentro de uma Calunga, onde fui por muitos anos o "Guardião Encarnado”! "Nego Véio" tem consciência de que não sofreu porque era bonzinho. Teve culpa passada e por isso resgatou. Quando retornei à “Pátria Espiritual”, verifiquei que não precisava, se quisesse, reencarnar no planeta Terra. Mas, como a mágoa é péssima companheira e deveria me livrar dela de alguma forma, por misericórdia do Pai a mim foi oferecida a oportunidade de trabalhar na "Lei de Umbanda” para, através da caridade e do amor, depurar esse "tiquinho” de mágoa existente. Certo dia, ao baixar no terreiro, esse “Véio” cantou: "Cipriano Quimbandeiro, chorou no cativeiro. Hoje chora de alegria o Rosário de Maria. Chora, chora, saravando Angola...

Vovó Maria Conga



Cenas de exaustivo trabalho em plantações de cana. É nisso que Vovó Maria Conga parece estar constantemente envolvida. Gosta de doces, cocada branca em especial, mas não dá demonstrações de ter sido esta sua principal ocupação na encarnação como escrava.
Sentada em um toco de madeira no terreiro contou, certa vez, alguns fatos de sua vida em terra brasileira.
Começou dizendo que só o fato de podermos conviver com nossos filhos é uma grande dádiva. Naquele tempo as negras eram destinadas, entre outras coisas, a procriar, a gerar filhos que delas eram afastados muito cedo, até mesmo antes de serem desmamados. Outras negras alimentavam sua cria, assim como tantos outros “filhotes” foram alimentados pela Mãe Conga. Quase todas as mulheres escravas se transformavam em mães; cuidavam das crianças que chegavam à fazenda, rezando para que seus próprios filhos também encontrassem alento aonde quer que estivessem.
Os orixás africanos, desempenhavam papel fundamental nesta época. Diferentes nações africanas que antes guerreavam, foram obrigadas a se unir na defesa da raça e todos os orixás passaram a trabalhar para todo o povo negro. As mães tomavam conhecimento do destino de seus filhos através das mensagens dos orixás. Eram eles que pediam oferendas em momentos difíceis e era a eles que todos recorriam para afastar a dor.
Maria Conga teve que se utilizar de algumas “mirongas” para deixar de ser uma reprodutora, e assim, pelo fato de ainda ser uma mulher forte, restou-lhe a plantação de cana. A colheita era sempre motivo para muito trabalho e uma espécie de algazarra contagiava o lugar. Enquanto as mulheres cortavam a cana, as crianças, em total rebuliço, arrumavam os fardos para que os homens os carregassem até o local indicado pelo feitor. Foi numa dessas ocasiões que Maria Conga soube que um dos seus filhos, afastado dela quando já sabia andar e falar, era homem forte, trabalhando numa fazenda próxima.
Seu coração transbordou de alegria e nada poderia dissuadi-la da idéia de revê-lo. Passou então a escapar da fazenda, correndo de sol a sol, para admirar a beleza daquele forte negro. Nas primeiras vezes não teve meios de falar com ele, mas os orixás ouviram suas súplicas e não tardou para que os dois pudessem se abraçar e derramar as lágrimas por tanto tempo contidas. Parecia a ela que eles nunca tinham se afastado, pois o amor os mantivera unidos por todo o tempo.
Certa tarde, quase chegando na senzala, a negra foi descoberta. Apanhou bastante, mas não deixou de escapar novamente para reencontrar seu filho. Mais uma vez os brancos a pegaram na fuga, e como ela ainda insistisse uma terceira vez resolveram encerrar a questão: queimaram sua perna direita, um pouco acima da canela, para que ela não mais pudesse correr.
Impossibilitada de ver o filho, com menor capacidade de trabalho, a Vó Maria Conga passou a cuidar das crianças negras e de seus doentes. Seu coração se encheu de tristeza ao saber que haviam matado seu filho quando tentava fugir para vê-la.
Sua vida mudou. De alegre e tagarela passou a ser muito séria, cuidando do que falavaaté mesmo com os outros negros. Para as crianças contava histórias de reis negros em terras negras, onde não havia outro senhor. Sábia, experiente e calada, Vovó Maria Conga desencarnou.
Com lágrimas na alma ela acabou seu conto. Disse que só entendeu a medida do amor após a sua morte. Seu filho a esperava sorrindo, guardião que fora da mãe o tempo todo em que aguardava seu retorno ao mundo dos espíritos.